Piauí, TV ano 40: Nada a comemorar


Entre 1972 e 1986, comunicação padrão de quinto mundo

João Eduardo Lima
Editor e criador dos blogs TV em Análise

NBCUPhotobank/Rex Features

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Na foto, Doug Ross como o doutor Válter “House” Alencar

Dos 40 anos da televisão comercial no Piauí, a serem completados nesta segunda-feira (3), 14 praticamente não existiram. Nesse período, o monopólio da TV Clube, primeiro filiada à REI (Rede de Emissoras Independentes) e depois à Globo, impediu a chegada de novos concorrentes. Empacou a indústria de comunicação local, a despeito da existência de quatro emissoras de rádio, no começo de 1980: Clube, Poti, Pioneira e Difusora. Todas AM. A frequencia modulada só chegaria em 1981.
Esse era o cenário que eu encontrei em Teresina após me mudar do Rio de Janeiro, na virada de 1979 para 1980, rompendo ano na Rio-Bahia em ônibus da viação Itapemirim e escutando Aparências do Márcio Greyck na rodoviária de Petrolina. No lugar do jornal das sete (como acontecia no Rio), após a novela das seis, a Clube passava o Inglês com Fisk, comprado junto à Tupi de São Paulo. Em 18 de julho do mesmo ano, os militares passaram a tranca na Tupi paulistana e mais seis emissoras associadas, abrindo-se assim caminho para desenhos animados (caso do Popeye, agora nas mãos da Band) no primeiro sanduíche global inter-novelas (de um total de dois para três).
Os males que o monopólio da Clube causou foram tamanhos que os piauienses passaram dez anos sem ver o Programa Sílvio Santos – voltaria emn 1986 já na TV Timon (atual Rede Meio Norte), com o selo de afiliada do SBT. Para a Clube, pesquisa de audiência em TV só passou a existir mesmo após a Copa do Mundo FIFA realizada no México. Feita pelo Ipop, em matéria paga no jornal O Dia. Só souberam das estreias de SBT, Manchete, Bandeirantes e TV’s educativas (TVE, no Rio, e Cultura, em São Paulo) pela mídia impressa. E principalmente das inaugurações das redes remanescentes do inventário da Tupi, realizado em 19 de agosto de 1981.
***
Além de atrasar a chegada do controle-remoto, do video-cassete e da TV a cabo (a NET incluiu a capital piauiense em seu plano de negócios para 2013), o monopólio da TV Rádio Clube de Teresina atrasou também a chegada dos cursos de Comunicação Social e das faculdades de jornalismo, radialismo e publicidade. Empacou o ensino superior. Emperrou a comunicação do Piauí ao nível de uma Eritréia ou de uma Somália. Ou de um Sudão do Sul (se for para agradar ao George Clooney do Plantão Médico). Impediu a pluralidade de opiniões, restritas ao rádio, aos principais jornais e aos jornais de sindicatos. Trancou a livre concorrência, impedindo que Tupi e Bandeirantes instalassem lá suas retransmissoras, graças à cretinice dos governos militares (Médici, Geisel e Figueiredo) de só dar um canal de TV a cada capital (apesar de, em 1970, Teresina já ter população suficiente, segundo o IBGE, para ver duas emissoras – 230.168. O Censo de 1980 – 388.922 habitantes – só agravou essa discrepância). Estagnou o mercado publicitário e as produtoras de comerciais (Para se ter uma ideia, de cada dez comerciais locais que iam ao ar na Clube, em 1984, cinco eram produzidos pela – pasmem! – TV Cidade de Fortaleza).
Até o dia 25 de abril de 1985, quando começaram a aparecer as “color-bars” da TV Timon (imediatamente após o enterro de Tancredo Neves em São João Del Rey, durante a novela das oito, Corpo a Corpo, primeiro trabalho de direção de Jayme Monjardim), a televisão do Piauí praticamente empacou, parou no tempo. Isso, numa época que capitais vizinhas como São Luís já contabilizavam três emissoras (TVE, Globo/Difusora e Band/TV Ribamar). Goiânia, três (Globo/Anhanguera, SBT/Goyá e Band/TV Brasil Central). Salvador, quatro (Globo/Aratu, Itapoan/SBT, Band e Bahia/Manchete). Recife, cinco (Band/Jornal do Commercio, Manchete, SBT/Tropical, Universitária e Globo). E Fortaleza, quatro (Manchete, no canal 2 da ex-TV Ceará, TVE, Band/TV Cidade e Globo/Verdes Mares). A chegada da TV Pioneira, canal 5, em fase experimental, exibindo a programação nacional da Bandeirantes, em 8 de janeiro de 1986, encerrou esse ciclo pernicioso da comunicação no Piauí, blindado por estandartizações e padronizações esdrúxulas. Monopolizando a fala e o direito de opinar no vídeo. Impedindo a concorrência até o último momento. Trancando as verbas publicitárias para TV.
Em 23 de março de 1986, após uma pausa, a TV Timon (ex-Band), canal 7, retornava já com a bandeira de afiliada do SBT. Estrearia sua programaçao local apenas em maio de 1987, após alguns testes. Em abril de 1986, o Dentel lançou licitação para a operação do canal 10, a quinta emissora de TV de Teresina. A TV Educativa do Piauí, canal 2, fechou o ciclo em novembro de 1986, apesar de prédio já inaugurado e perrengue para obter o link da Embratel (restrito à afiliada global até então). O interior só ganharia sua primeira concessão de TV em 1988, na febre da votação (e em pleno furor popular) pelo mandato do então presidente José Sarney. Floriano foi a cidade contemplada. Em 1992, Parnaíba recebeu licença para a geradora de TV educativa local. E assim seguiu a roda.

Sobre João Lima

Crítico de entretenimento desde 2001, João Eduardo Lima escreve no Jornal Meio Norte. Foi repórter de Regional, Polícia e Nacional. Em 2005, entrou no mundo da blogosfera independente com o pioneiro TV em Análise. Suas postagens sobre os bastidores do Miss Brasil-Miss Universo mostraram ao público um lado dos concursos de beleza que os organizadores não querem que você saiba. E, ainda por cima, querem, na base da mordaça, impedir você, leitor, contribuinte e pagador de impostos, de saber o que está por trás do manto vermelho da missologia nacional.
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