Análise: O cinema e as Olimpiadas


De Olympia de Riefenstahl a Munich de Spielberg

Por Rubens Ewald Filho
No R7

Não podemos perder esta oportunidade e relembrar alguns dos principais filmes feitos sobre o maior evento esportivo do mundo. Vamos começar com o mais famoso de todos, uma obra-prima do cinema (nazista): Olympia.

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Olympia (Idem, 1938). Documentário. 204 min. Preto e Branco. Alemanha. Diretora: Leni Riefenstahl. Sobre os Jogos Olímpicos de 1936, em Berlim.

Comentários: Este é o lendário documentário realizado pela grande inovadora e estilista do gênero Leni Riefenstahl (1902-2003), registrando os Jogos Olímpicos de 1936 na Alemanha nazista. Apesar da má fama que tem, reputado como propaganda do regime e de Hitler e da apologia da superioridade ariana, na verdade foi encomendado a Leni pelo Comitê Olímpico Internacional e, visto hoje com isenção e distanciamento, é inegável que dá o mesmo destaque aos expoentes dos povos “inferiores” e “decadentes”, como o fenomenal corredor negro americano Jesse Owens ou o japonês Son, vencedor da maratona operisticamente mostrada por Leni. Mesmo as aparições de Hitler torcendo pelos alemães são poucas e não despertariam a mínima atenção caso se tratasse de outro chefe de Estado. Até a longa sequência de abertura, com a câmera deslizando lentamente entre ruínas gregas, parece hoje um involuntário comentário sobre o fim melancólico de todos os impérios. Mas independente de qualquer juízo ideológico, é inegável a maestria de Leni, que ficou um ano e meio editando as imagens captadas.
Ela já dá o tom geral do filme ao mostrar no começo uma sinfonia de corpos nus (entre os quais o dela mesma) exercitando-se ao som da trilha musical. Depois o que vemos é um misto de registro do resultado das competições e das emoções da plateia com uma verdadeira apologia do corpo humano, do vigor e da energia dos atletas, da beleza gráfica de suas evoluções e proezas. Tudo usando muitos planos de detalhe, câmera lenta, montagem criativa e dinâmica. Um clássico do gênero. Foi premiado no Festival de Veneza. É conhecido no Brasil também como Olimpíadas. Divididos em dois capítulos: Ídolos do Estádio (Fest der Völker) e Vencedores Olímpicos (Fest der Schönheit).

Aconteceu em Atenas (It Happened in Athens, 1962). Direção de Andrew Marton. Com Jayne Mansfield, Bob Mathias, Trax Colton. Em 1896 o comitê olímpico anuncia que irá acontecer a primeira Olimpíada dos tempos modernos e na Grécia. Um jovem camponês Spiridon (Trax) resolve entrar para concorrer na Maratona. Jayne Mansfield (1933-67) é a maior atriz da Grécia (!!!) que anuncia que irá se casar com o vencedor. Comédia sem graça e sem sexo. Traz participação de um americano campeão olímpico, Bob Mathias (1930-2006), que chegou a fazer certo sucesso. E ganhou duas vezes o Decathlon em Londres e Helsinki.

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Devagar Não corra (Walk Dont Run, 1966). Último filme de Cary Grant, refilmagem de The More The Merrier, de George Stevens, Original Pecado, 1942, com Jean Arthur, Charles Coburn. Comédia que se passa durante as Olimpíadas de Tóquio quando há falta de alojamentos e um casal tem que compartilhar o mesmo apartamento (São Jim Hutton e Samantha Eggar. Ele faz um corredor que está competindo).

Os Jogos (The Games, 1970) Esquecido e pouco visto filme de Michael Winner que acompanha quatro corredores de maratona (um da Inglaterra, um americano, um tcheco e um aborígine australiano). Mostra cada um deles e sua motivação para participar da Olimpíada. Com Rafer Johnson (campeão olímpico em Roma), Ryan O`Neal, Michael Crawford, Charles Aznavour, Stanley Baker.

Visões de Oito Mestres (Vision of Eigth, 1973). Raro documentário visto aqui só em tv e raramente. Mostra as Olimpíadas através de sonhos pessoais retratados por diretores famosos: Claude Lelouch, Milos Forman, Kon Ichikawa, Arthur Penn, Mai Zetterling, John Schlesinger e os menos lembrados Yuri Ozerov e Michael Pfleghar.

O Maior de Todos (The Greatest, 1977). Direção de Tom Gries. Biografia precoce do jovem campeão olímpico de boxe, Cassius Clay, que eventualmente se tornaria Muhammad Ali (baseado em sua biografia) que interpreta a si mesmo.

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Carruagens de Fogo (Chariots of Fire, 1981) Direção de Hugh Hudson. Um caso raro de combinação perfeita de imagem com música. Cada vez que se ouve a canção tema de Carruagens de Fogo retornam as imagens dos atletas correndo na praia. É obra do grego Vangelis que fazia parte antes do grupo Aphrodite´s Child e também compôs Blade Runner. Um momento tão marcante e tão copiado que até hoje obscurece o filme britânico que foi um inesperado ganhador do Oscar de Melhor Filme, Roteiro, Figurino e também, logicamente, Trilha Musical.
Não foi um filme fácil de produzir, ninguém acreditava no sucesso da história real de dois atletas britânicos que participaram das Olimpíadas de 1924, em Paris, um judeu e um devoto cristão. O produtor David Puttnam estava procurando por uma história positiva no estilo O Homem que não Vendeu a Alma sobre alguém que segue sua consciência e percebeu que há muitas situações deste tipo no esporte. O produtor encontrou a história por acaso num livro de referências em Los Angeles e conseguiu detalhes pedindo ajuda das pessoas através dos jornais britânicos. Escolheu propositalmente um diretor pouco conhecido, Hugh Hudson, que só depois faria Greystoke e Revolução. Também o elenco mistura novatos e veteranos do palco britânico, como Ian Charleson, John Gielgud, Ben Cross, Ian Holm, Patrick Magee e aparições dos americanos Dennis Christopher e Brad Davis. Carruagens de Fogo foi indicado também aos Oscars de Ator Coadjuvante (Holm), Direção (Hugh que perdeu para Warren Beatty por Reds e Montagem. Uma curiosidade: foi coproduzido por Dodi Fayed, o falecido namorado da Princesa Diana.

As Parceiras (Personal Best, 1982). Outro filme de Robert Towne (Chinatown) que é um dos raros a mostrar a relação homossexual entre duas mulheres que são corredores pré-olímpicas (Mariel Hemingway e Patrice Donnelly).

American Anthem (1986). Um caso raro de um campeão olímpico que tentaram transformar em astro de cinema, o fotogênico Mitchell Gaylord que havia sido campeão olímpico de ginástica numa história que mais ou menos parafraseia sua vida (com toques patrioteiros).

Jamaica Abaixo de Zero (Cool Runnings, 1993). Foi grande sucesso de bilheteria aqui no Brasil esta comédia sobre fato real, feito pela Disney com John Candy como o treinador de um grupo da Jamaica que vai competir num esporte de inverno que não existe em seu país. Muito divertido e um dos últimos trabalhos de Candy que logo depois morreu.

Prova de Fogo (Without Limits, 1998), de Robert Towne. A história do famoso corredor dos anos 70 Steve Prefontaine desde o Oregon ate as Olimpíadas de Munique e sua morte, aos 24 anos, de acidente de carro. Com Billy Crudup e Donald Sutherland. Houve outro filme biográfico também sobre o mesmo personagem, o bom, mas pouco conhecido, Prefontaine, de Steve James, onde o papel foi vivido pelo subestimado Jared Leto.

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Um Dia em Setembro (One Day in September, 1999) Documentário. 91 min. Cor. 1999. Alemanha/Suiça. Diretor: Kevin McDonald. Elenco: Michael Douglas (narrador). Sinopse: Em Munique, Alemanha, durante os Jogos Olímpicos de 1972, oito terroristas palestinos capturam como reféns 11 atletas da delegação israelense. Através de depoimentos, de documentários da época e do depoimento do único sobrevivente, recriam-se os fatos.

Comentários: Uma produção de Arthur Cohn, que também foi produtor de Walter Salles em Central do Brasil e que ganhou o Oscar de Melhor Documentário (onde passou apenas como Um Dia em Setembro). Embora pouco visto no Brasil, é o filme que inspirou Spielberg a rodar seu Munique, que é muito inferior a ele. Aqui se conta direitinho e pela primeira vez os bastidores do que sucedeu no atentado terrorista nas Olimpíadas na Alemanha, no que foi basicamente uma sucessão de erros e incompetências, de conivência da policia alemã e outros absurdos. A morte dos terroristas contada por Spielberg é mencionada apenas nos letreiros finais. O que vale é a precisa e eficiente observação dos fatos, hora e hora, realizado pelo diretor escocês que, em 2006, concorre ao Oscar pela ficção O Último Rei da Escócia, com Forrest Whitaker. Este é um clássico do gênero.

Desafio no Gelo (Miracle, 2004). Direção de Gavin O´Connor. Em 1980, durante a Guerra Fria, o time americano de hóquei procuram uma vitória estilo David e Golias contra o time soviético. Kurt Russell faz o treinador.

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Munich (Idem, 2005). 164 min. Cor. EUA. Universal. Diretor: Steven Spielberg. Elenco: Eric Bana, Daniel Craig, Ciaran Hinds, Gila Almagor, Michel Lonsdale, Mathieu Kassovitz, Geofrey Rush, Yvan Attal, Marie-Josee Croze, Valeria Bruni Tedeschi, Mathieu Almaric.

Comentários: Este foi o filme que Spielberg realizou logo depois de ter concluído às pressas Guerra dos Mundos. Só que optou pela discrição, tentando evitar polêmicas, o que provocou algumas reações negativas. Porque, no fundo, o filme cumpre menos do que promete, nem propõe nada de muito original ou ousado. O filme deixa claro que não está falando tanto do caso em si, mas se referindo aos terroristas atuais (isso fica evidente quando se encerra com as imagens das antigas torres do World Trade Center, vistas do Brooklyn). Para o meu gosto, Spielberg diz menos do que deveria e também de forma altamente discutível. Até como cineasta.

Sobre João Lima

Crítico de entretenimento desde 2001, João Eduardo Lima escreve no Jornal Meio Norte. Foi repórter de Regional, Polícia e Nacional. Em 2005, entrou no mundo da blogosfera independente com o pioneiro TV em Análise. Suas postagens sobre os bastidores do Miss Brasil-Miss Universo mostraram ao público um lado dos concursos de beleza que os organizadores não querem que você saiba. E, ainda por cima, querem, na base da mordaça, impedir você, leitor, contribuinte e pagador de impostos, de saber o que está por trás do manto vermelho da missologia nacional.
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