Análise: Ressurgem as Trevas previstas por Batman


Mas o incidente ocorrido na pré-estreia do filme em uma sala em Aurora, Deus sabe onde fica no Colorado, não foi causado pelo filme em si. Não deu tempo

Por Rubens Ewald Filho
No R7

Reprodução

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Teve um momento ontem durante a pré-estreia para a imprensa de Batman: O Cavaleiro das Trevas Ressurge que me ocorreu que algumas das cenas que víamos poderiam provocar imitação, que seriam aquilo que antigamente chamávamos de mau exemplo. Uma verdadeira aula para terroristas. Um mapeamento daquilo que deveriam fazer e como agir da próxima vez que atacassem Nova York.
Sem dúvida, o filme está ali denunciando a maldade humana, a ingratidão, a fraqueza, a corrupção, a falta de heroísmo e hombridade que levam Gotham City à ruína. Mais ainda quando ela prosperava e, aparentemente, controlava a violência e o crime organizado. Mas que no fundo estava subterrânea, comendo por dentro como uma diabetes não anunciada.
Mas o incidente ocorrido na pré-estreia do filme em uma sala em Aurora, Deus sabe onde fica no Colorado, não foi causado pelo filme em si. Não deu tempo. A influência — se houve — foi do filme anterior, justamente aquele que todos louvam, eu inclusive. O Joker/Coringa era ainda mais cativante que o atual vilão, ainda mais valorizado por uma interpretação carismática de Heath Ledger, deste anárquico, um profeta do caos, daqueles que gostam de ver o circo pegar fogo.
Mas o clima deste novo filme consegue ser ainda mais dark, mais apocalíptico e o trágico que pensando bem agora, o massacre na sala de cinema americana parecia ao menos muito possível. Não consigo deixar de recordar o caso de outro filme tão louvado que foi o Clube da Luta, uma das razões porque não gosto de seu diretor David Fincher.

Divulgação

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Eu vi o filme em Veneza, no Festival, e voltei dizendo que o filme era perturbador, perigoso mesmo e avisando a um amigo que trabalhava com educação para que não perdesse o filme porque este poderia ter consequências no público. Mal sabia eu que era uma forma de intuição.
Quando passou em São Paulo, alguém deve lembrar, no Shopping Morumbi, um maluco armado se levantou no meio do filme e começou atirar na plateia e matou algumas pessoas. Inclusive injusta coincidência, numa amiga minha que viria a falecer. Logo nós, brasileiros, que nos orgulhamos de ter sangue de barata, de não fazer revolução na rua, de mal sabermos protestar…
Mas também somos macacos, imitamos os americanos em tudo que eles têm de pior. E olha que isso foi antes dos massacres americanos em escolas. Fomos precursores. Não estou pregando censura, mas talvez apenas responsabilidade. Lidamos com cabeças frágeis, confusas, cada vez com menos formação e autoridade, sem família, com informações distorcidas e um presente extremamente confuso e descrente.
Há um espírito de imitação (copycat), uma facilidade absurda em comprar armas, uma absoluta falta de culpa em matar os outros (e vemos todos os dias como a vida humana cada vez vale menos, ficou tudo banalizado, cada vez que um noticiário de teve da detalhes de um crime, será que não o está promovendo)? Incentivando ainda mais o criminoso que fica famoso e pega um pena mínima?
Estava neste momento em que chegou a notícia vendo uma cópia em Blu-ray de O Show de Truman, um filme que ficou esquecido e que foi pioneiro em denunciar os realities shows (palavra que nem existia em 1998, época que foi feito) e a manipulação, que são por definição a total banalização de tudo, a celebração da celebridade aquele que é famoso por ser famoso.
Onde falar em educação ou cultura em televisão e imagina que disparate em cinema de qualidade, beira as raias do absurdo, do impossível, do ridículo. Não creio haver qualquer dúvida que Batman não foi escolhido pelo psicopata por ser popular e estar com sala cheia com gente fugindo do calor na segurança de um ar-condicionado.
Também espero que não culpem o(s) filme(s) que, muito pelo contrário, são obras de um artista, alguém que está tentando alertar. Que mundo podre é esse que mata seus heróis, que perde seus valores? No Batman anterior havia uma clara lição de moral, quando o Coringa propõe o jogo das duas barcas, na expectativa de que seus ocupantes detonem os outros, os criminosos versus os bons cidadãos, quem iria apertar o gatilho antes? E não entende como isso não acontece…

Reprodução

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Neste novo filme, Ressurge, há outra cena e não estou revelando nenhum momento fundamental, em que Joseph Gordon Levitt como um detetive de policia tenta levar as crianças para fora de Gotham City que está ameaçada de ser destruída por bomba atômica. Mas é barrado por um policial qualquer que barra a única ponte de pé. Tenta argumentar com ele, mas este prefere explodir a ponte, levar a ordem ate o fim. Ainda que errada e mal informada.
Não sei se outro diretor e roteirista faria uma cena dessas criticando a tão famosa e louvada policia de Nova York. Há outros momentos no filme mais reveladores que serão discutidos quando ele estrear. Mas este me tocou especialmente. Ordens também podem ser burras, ações erradas, matam inocentes como o publicitário paulistano. Assassinos não são apenas loucos, são produtos da sociedade que os criou. Nós ou talvez o próprio cinema, pode estar alimentando-os.

Sobre João Lima

Crítico de entretenimento desde 2001, João Eduardo Lima escreve no Jornal Meio Norte. Foi repórter de Regional, Polícia e Nacional. Em 2005, entrou no mundo da blogosfera independente com o pioneiro TV em Análise. Suas postagens sobre os bastidores do Miss Brasil-Miss Universo mostraram ao público um lado dos concursos de beleza que os organizadores não querem que você saiba. E, ainda por cima, querem, na base da mordaça, impedir você, leitor, contribuinte e pagador de impostos, de saber o que está por trás do manto vermelho da missologia nacional.
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