Forastieri: Torturou os pais na frente dos filhos e vive tranquilo


Nem a namorada do Ryan Seacrest acredita nessa tal de Comissão da Verdade para apurar os crimes da ditabranda

Por André Forastieri
Do R7

Gostou da manchete estilo Notícias Populares? É que eu realmente queria que você soubesse a história de César e Maria Amélia Teles. Era um jovem casal, vinte e poucos anos, e já com dois filhos, Janaína e Edson. Eram os anos mais difíceis da ditadura militar, que enfrentavam.
César era integrante do Partido Comunista Brasileiro. Cuidava da gráfica clandestina do partido. O casal foi preso. Os dois foram torturados. Na frente das crianças. Que tinham quatro e cinco anos. Maria Amélia ouviu: “seus filhos também estão sendo torturados. A esta hora, sua Janaína já está no caixãozinho.”
Mentira. Mais uma crueldade. O líder da tortura foi o coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra. Vive livre e tranquilo. Foi beneficiado pela Lei da Anistia. A família Teles processa Ustra. O Tribunal de Justiça de São Paulo adiou ontem o recurso de Ustra contra sua sentença, na qual foi reconhecido como torturador.
A decisão é inédita e importante. Responsabiliza um militar por sua ações durante a ditadura. Não adianta mais só dizer que estava seguindo ordens, enfrentando os terroristas, ou que a Lei da Anistia tudo apagou.

Reprodução

familia ok Torturou os pais na frente dos filhos e vive tranquilo
Janaina, César, Maria Amélia, César

O que quer a família Teles, indenização? Nem um centavo. Só a responsabilização civil de Ustra. Punição pelo que fez o comandante do Doi-Codi em São Paulo, onde morreram mais de quarenta pessoas em decorrência de torturas.
“Ninguém propôs a lei da anistia para anistiar os torturadores, só o Supremo Tribunal Federal resolveu achar isso. A lei tem que ser interpretada corretamente”, disse César, hoje com 67 anos, ao Valor Econômico.
Ustra tinha tudo para sair na boa. Ainda tem, mas ficou mais difícil. O advogado dos Teles, que virou o jogo ontem, é Fábio Konder Comparato, um dos mais eminentes juristas brasileiros. “O Tribunal de Justiça não pode se recusar a reconhecer a responsabilidade civil do mais notório torturador da ditadura”.
Viro a página do jornal. Durante o não-depoimento de Carlinhos Cachoeira na CPI que tem seu nome, seu advogado, Márcio Thomaz Bastos, recebe elogios de parlamentares de partidos vários.
Todo bandido tem direito à melhor defesa que puder pagar, sei – mas mesmo se o dinheiro veio do crime e dos cofres públicos? Mais ainda. Estamos no Brasil.
Na foto, o sorriso irônico de Cachoeira ecoando no de Bastos diz mais do que sou capaz.

Reprodução/R7

cachoeira ironico ok Torturou os pais na frente dos filhos e vive tranquilo

Tenho pouca fé na Comissão da Verdade e menos ainda no Judiciário brasileiro, para não falar do Executivo, Legislativo, e mesmo do Quarto Poder. O que significa dizer: tenho pouca fé nos brasileiros. Sabemos onde vivem os monstros. Do passado e presente. Se permanecem impunes e atuantes, é por nossa impotência institucional, nossa decisão coletiva, minha vergonha.
Mas alguns de nós, tantos anos atrás, decidiram ser César e Maria Amélia, e outros Ustra. E, hoje, uns escolhem ser Márcio Thomaz Bastos e, outros, Fábio Konder Comparato.

Sobre João Lima

Crítico de entretenimento desde 2001, João Eduardo Lima escreve no Jornal Meio Norte. Foi repórter de Regional, Polícia e Nacional. Em 2005, entrou no mundo da blogosfera independente com o pioneiro TV em Análise. Suas postagens sobre os bastidores do Miss Brasil-Miss Universo mostraram ao público um lado dos concursos de beleza que os organizadores não querem que você saiba. E, ainda por cima, querem, na base da mordaça, impedir você, leitor, contribuinte e pagador de impostos, de saber o que está por trás do manto vermelho da missologia nacional.
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