Estilo de vida de ex-chefões do Miss Brasil(*) é incompatível com a renda, dizem Fisco e FBI americano


Entre 2002 e 2006, Nayla Micherif e Romo Neves enriqueceram rapidamente com acordos de televisão “anabolizados” do certame, compra de votos de jurados, acordos comerciais fictícios e propinas a jornalistas; segundo especialistas, comportamento do casal da gaeta(**) configura crime financeiro

Da redação TV em Análise

Félix Zucco/Agência RBS/03.03.2012


Nayla Micherif e Rono Neves: renda incompatível para administrar um concurso superfaturado e frequentar festas para desespero de coordenadores estaduais abandonados e jogados à própria sorte

Mansões, fazendas, aviões particulares, firmas de fachada. Estilo de vida regado a propinas, acordos comerciais de mentirinha e testas-de-ferro ligados ao PSDB do então governador Aécio Neves e de José Serra, ex-ministro da Saúde do (des)governo FHC envolvido com o escândalo das ambulâncias superfaturadas. Assim é a crônica de crimes financeiros cometidos entre maio de 2002 e julho de 2006 pelo casal Nayla Micherif e Rono Neves, chefes da quadrilha que destruiu o concurso Miss Brasil entre 1999 e 2011, também encabeçada pelo empresário carioca Boanerges Gaeta Jr., ligado a lobistas da Rede Globo e do tucanato.
Documentos oficiais provam que a quadrilha Nayla-Romo-Boanerges Jr. montou ao menos 13 firmas de fachada entre março de 2002 e março de 2005 para fabricar acordos fictícios de patrocínio para o até hoje combalido concurso Miss Brasil(*), organizado pela Gaeta Promoções e Eventos até o ano passado por indicação da Globo, que havia tomado os direitos do concurso em 1993 da ex-produtora do SBT Marlene Brito, descredenciada a pedido de Roberto Irineu Marinho, intermediário da emissora carioca junto à Miss Universe Inc., sediada em Nova York. Uma delas, a DMA Distribuidora, doou R$ 17.143.248,54 para fazer o “caixa 2” da campanha de eleição da capixaba Débora Moura Lyra como Miss Brasil(*) 2010, sob a faixa de Miss Minas Gerais.
Uma segunda firma, a 2 Minds, foi montada às pressas pelo esquema Gaeta-Neves-Micherif para viabilizar a montagem do site oficial do concurso, em março de 2002. A página foi tirada do ar em 27 de fevereiro de 2012 em função de dívidas junto à empresa Locaweb, estimadas em R$ 65 mil. Na teoria, Nayla fazia comerciais de TV da Locaweb nas transmissões do Miss Brasil(*) 2002 e 2003 de forma a tentar quitar as dívidas da Gaeta junto à Rede TV! e ao ECAD, neste último caso acumuladas desde 1991. Na prática, a Locaweb era usada como lavanderia do dinheiro sujo operado pelo triunvirato Gaeta-Neves-Micherif junto à Globo e ao PSDB para produzir matérias contra o então candidato e o já presidente da República Luís Inácio Lula da Silva (PT).

Neopetistas de butique

De acordo com investigações sigilosas da Receita Federal do Brasil e do Federal Bureau of Investigation (FBI) do governo norte-americano, o casal Micherif-Neves se apresentou à direção da Band, na sede do Morumbi, em 14 de março de 2003, como “neopetistas saídos de uma butique paulistana da alta elite conservadora e direitista, como a Daslu [da família da empresária Eliana Tranchesi, morta este ano]”. Segundo os papeis sigilosos, Nayla Micherif votara nas eleições gerais de 2002 em José Serra e Aécio Neves para presidente e governador, respectivamente, “para atender um pedido pessoal de Romo”. À época, Nayla era uma simples estudante de turismo recém-saída da faculdade, mãe e casada, enquadrada no perfil de telespectadora da Globo definido em 1976 pelo panamenho Homero Icaza Sánchez, o Bruxo das análises estatísticas do primetime da TV aberta brasileira durante a ditadura militar, da qual a Globo se amamentou, cresceu e se solidificou, graças a verbas publicitárias oficiais em massa, concedidas pelo Palácio do Planalto (o esquema vigora até hoje, só que em escala bem menor).

Reprodução/Blog Terezinha Sodré


Bonnie e Clyde das Alterosas com a atriz Terezinha Sodré (esq.): camarotes poderosos, jato particular, festas caras e sofrimento para as coordenações estaduais

À época da assinatura do contrato com a Gaeta Promoções e Eventos, a Band acabara de exercer apoio a Lula nas eleições presidenciais. E se valeu da influência junto ao novo governo para cooptar nomes para o júri do Miss Brasil(*) 2003, como o da então primeira-dama Marisa Alencar e de estilistas e empresários mineiros, estes aliados ao projeto neoliberal e destruidor do PSDB-PFL (atual Democratas). “A gente fica aqui se matando de ódio dessa lerdeza e descaso da gaeta e da Nayla enquanto ela passa férias em Punta [del Este], um dos balneários mais caros e badalados do mundo, e desfila no carnaval do Rio e é convidada de todos os camarotes poderosos. Vivendo como rainha em sua mansão, carros importados, jatinho particular, motoristas, seguranças e tomando muito champagne Crystal. Por essas e outras que nós, missólogos, não temos como orgulhar do Miss Brasil”, relatava em 22 de fevereiro a internauta do Críticas no BLiG Lolita Arruda. E não é invenção: segundo o FBI e a Receita, Nayla e Romo Neves adquiriram esse estilo de vida subitamente de 2002 a 2003, quando a Globo tirou o Miss Brasil(*) da Rede TV! e o repassou à Band, segundo especialistas, por aproximadamente R$ 300 mil – menos de um terço do que valia o concurso durante a época do SBT, entre 1981 e 1989. E menos de um décimo do que valia durante a época de ouro dos Diários Associados, entre 1955 e 1973 (após esse ano, o valor de mercado do concurso só fez despencar, à medida que o império de Assis Chateubriand vinha sendo desmontado devido a falências e vendas de jornais e emissoras a outros grupos regionais). Graças ao acordo com a Band, Nayla e Romo Neves embolsaram de uma só vez R$ 800 mil (menos do que a Rede Globo pagava à época para o Clube dos 13 e a CBF para transmitir o Campeonato Brasileiro de Futebol). Montante esse que deixaria a Band no vermelho nos dois primeiros anos de transmissão do Miss Brasil (2003 e 2004) e também nos seguintes. Em 2011, estima-se que a Band tenha embolsado cerca de R$ 16 milhões para manter o concurso na grade (menos do que seu valor de mercado declarado pela Gaeta, estimado em R$ 25 milhões).

Divulgação/UOL/15.04.2004

A gaúcha Fabiane Niclotti
Coroação da Miss Brasil(*) 2004: festa superfaturada por empresas de fachada da gaeta(**) e contratos publicitários de mentirinha

Dentro da Band, Nayla Micherif criou um mundo à parte, cercada de seguranças por todos os lados, armados até os dentes, inclusive nas suas propriedades – uma casa no bairro dos Andradas e um escritório no centro de Belo Horizonte e o Haras Neves, em Ribeirão das Neves, região metropolitana da capital mineira. Diretores e ex-diretores das áreas de jornalismo e artística contaram aos repórteres do Críticas que “era impossível trabalhar com Nayla Micherif, em dadas ocasiões, por que ela queria ser a Madonna” e que “a Miss Brasil 1997 queria se apresentar como uma popstar tipo a Lady GaGa ou a Beyoncé, por exemplo”. Um ex-diretor da Band, horrorizado, relatou que, em 2009, “Nayla pediu 17 seguranças para o palco pequenininho do Memorial da América Latina na noite do Miss Brasil e a Band não atendeu”. Absurdo por absurdo, a quadrilha de Neves-Micherif assustava a Band mais que Bonnie e Clyde no centro dos Estados Unidos durante a era da Grande Depressão. A ponto, inclusive, de ganhar uma adapatação romanceada para o cinema. Melhor que a de Arthur Penn, feita em 1967 com Faye Dunaway e Warren Beatty, ganhadora de dois Oscars.

Grana “bombada”

Segundo uma ex-produtora do Miss Brasil(*) da Band, Nayla Micherif conseguiu anabolizar em mais de 300% o valor dos direitos de transmissão do certame entre 2003 e 2005, de modo que a Rede Globo não pudesse pagar para tirar o concurso da emissora paulista. “Por mais misses que tivessem no BBB – Joseane, Grazi, só para citar alguns casos – eles [a Band] eram forçados a superfaturar o valor do certame para que Globo ou Record não tomassem o Miss Brasil(*) da Band”, relata. De acordo com o FBI, Nayla orientou a Band a inflacionar o valor do Miss Brasil(*) para dificultar sua renovação contratual e tentar passá-lo à Globo, de modo que a emissora carioca pagasse para não transmití-lo, como faz com diversas séries estrangeiras e eventos esportivos. “É um absurdo como uma senhora dessas [Nayla] enriqueça em tão pouco tempo para superfaturar os direitos de exibição de um concurso decadente e ultrapassado, como o Miss Brasil”, atesta o técnico da Receita Federal, cuja identidade será preservada.
A anabolização financeira do concurso Miss Brasil(*), verificada de 2003 a 2007, foi produto sobretudo do enriquecimento rápido e sombrio de sua principal executiva. E, na contramão, resultou na perda gradativa de poderes de Boanerges Gaeta Jr., quem na teoria administrava a concessão brasileira do Miss Universo – na prática, era Nayla Micherif quem tocava o concurso ao lado de ruralistas incrustados na Band, ainda alinhados com o governo Lula. E que, em agosto de 2009, romperam com o então presidente após a divulgação, pelo Ministério da Agricultura, das metas de produtividade que assustaram fazendeiros, como o próprio Romo Neves, alinhado da UDR, do PSDB e da Globo.
Segundo técnicos da Receita, o padrão de vida ostentado por Nayla Micherif entre 2003 e 2011 é incompatível com a renda que tinha em 2002, estimada em R$ 30 mil. Com a caixa-preta da corrupção missológica do trio Gaeta-Neves-Micherif posta à mostra, as máscaras tucanas-globelezadas do Miss Brasil dos anos 2000 e começo da década de 2010 começam gradativamente a cair.

(*)Na teoria, a Band é dona dos direitos de transmissão do concurso Miss Brasil e de seus concursos estaduais quando, na prática, estes pertencem à Globo (que desde 1990 paga para não transmití-lo). É a mesma coisa que a emissora da famíglia Marinho fez (e ainda faz) com as séries da FOX, como Glee, Bones, Burn Notice e outras (fora as animações)
(**)gaeta é o modo como a Gaeta Promoções e Eventos deve ser sempre escrita: em minúsculas, para provar o quanto o Brasil é uma sub-Venezuela, um sub-Porto Rico, uma sub-Colômbia (tipo um Whooper Jr.) ou uma Guatemala tamanho-família (tipo esses sanduíches Whooper do Burger King, Sub do Subway, Big Bob, Big Mac e afins) em termos de concursos de misses

Sobre João Lima

Crítico de entretenimento desde 2001, João Eduardo Lima escreve no Jornal Meio Norte. Foi repórter de Regional, Polícia e Nacional. Em 2005, entrou no mundo da blogosfera independente com o pioneiro TV em Análise. Suas postagens sobre os bastidores do Miss Brasil-Miss Universo mostraram ao público um lado dos concursos de beleza que os organizadores não querem que você saiba. E, ainda por cima, querem, na base da mordaça, impedir você, leitor, contribuinte e pagador de impostos, de saber o que está por trás do manto vermelho da missologia nacional.
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