Dossiê do Críticas: Aliadas, a famíglia Marinho, a ABRACOS e Paulo Max destruiram o sonho das misses brasileiras


Entidade de colunistas sociais ligados à Globo assumiu os direitos de promoção do concurso Miss Brasil-Miss Universo em 1994 e usou ex-funcionário da Tupi como testa-de-ferro. O texto encerra a série do TV em Análise Críticas sobre os 20 anos da negociata fracassada da emissora carioca com Marlene Brito e a Miss Universe Inc.

João Eduardo Lima
Editor e criador dos blogs TV em Análise

Globoesporte

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Na foto, Maseru, capital do Rio Grande do Sul

Passada a experiência malsucedida e a dor-de-cabeça que se transformou a má gestão da ex-funcionária do SBT Marlene Brito, o concurso Miss Brasil chegou em 1994 entubado e em estado vegetativo de coma terminal. Não recebia um centavo de seus antigos anunciantes, todos migrados para as novelas das redes Globo, Manchete e SBT, bem como para seus respectivos programas de auditório. No campo dos eventos não-esportivos internacionais na TV aberta brasileira, o único destaque era a festa de entrega do Oscar, disputada a tapa entre Globo e SBT. No começo daquele ano, a emissora de Sílvio Santos venceu a licitação promovida pela Academy of Motion Pictures Arts and Sciences (AMPAS) e pela rede americana ABC, desfalcando a Globo de seu único evento não-esportivo internacional fora as Copas do Mundo FIFA e a Fórmula 1 (sob sua custódia até hoje). A rede da famíglia Marinho também perdeu os direitos de transmissão do Grammy Awards, que expiraram em 1993.
Para tentar salvar o Miss Brasil, um grupo de colunistas sociais, em sua maioria formado por jornalistas simpáticos a políticos aliados do regime militar de 1964 e ao monopólio da Rede Globo, em agosto de 1993, se reuniu secretamente no Rio de Janeiro para tentar articular a derrubada de Marlene Brito da direção da Most of the Brazilian Beauty, empresa de fachada formada em 1990 para atender interesses da própria Globo como moeda de compensação pela negociação fracassada com a Miss Brasil 1989, Flávia Cavalcante Rebêlo, para integrar o cast da novela Meu Bem Meu Mal (Flávia foi trocada por Luma de Oliveira que, grávida, teve sua personagem assassinada na trama). Foi atrás de Paulo Max, ex-funcionário da TV Tupi que montara uma empresa de promoção de eventos, anos antes, para organizar um concurso de menor repercussão, o Miss Brasil Beleza Internacional, feito em associação com a revista Manchete, cujo dono, Adolfo Bloch (1908-1995) quase não recebeu as concessões de sua rede de TV homônima, inaugurada em 1983, devido a recalamações do general João Figueiredo (1908-1998) durante uma viagem do então presidente à Colômbia em 1981. “Eu estive vendo a Manchete, é uma vergonha. Só da bicha e mulher pelada e vocês vão colocar isso na televisão. Assim não vou dar a concessão”, reclamou Figueiredo. O bote estava feito.
Segundo a imprensa da época, a ABRACOS (Associação Brasileira dos Cronistas Sociais) fechou por valor não-revelado a compra da franquia brasileira do Miss Universo junto à Miss Universe Inc., sediada em Nova York. Pelas contas levantadas por especialistas ouvidos pelo Críticas, o negócio teria sido fechado, em moeda da época, por 500 mil cruzeiros reais, mil vezes menos que o valor de mercado da franquia venezuelana do Miss Universo, a mais importante àquela altura e super-emergente, por exemplo. Ao invés de ajudar, a ABRACOS só fez afundar ainda mais os concursos de misses no Brasil. Tanto foi que arranjaram Max, ex-condutor do Miss Brasil na Rede Tupi, para servir como garoto-propaganda do projeto fracassado de revitalização do concurso, brecado por lobistas e empresários ligados à Globo e a partidos políticos de direita à ocasião como PMDB, PDS (atual PR) e PFL (atual Democratas).
De acordo com registros, Paulo Max entrou como proprietário da concessão brasileira do Miss Universo auxiliado por outras três pessoas: Boanerges Gaeta Jr., Sérgio Brum e Paulo Max Júnior, todas usadas como “laranjas” da ABRACOS e da TV Globo junto à Miss Universe Inc. e a rede americana CBS. Na prática, os direitos de transmissão do Miss Universo ainda pertenciam ao SBT, mas, na teoria, estavam alienados ao esquema de Max e de seu bando. Ou seja, o SBT, por imposição da Globo, pagava por um concurso de beleza que não exibia. Foi assim de 1990 a 1997 e de 1999 a 2002.

O pus do Brasil

Segundo ex-coordenadores estaduais do Miss Brasil na gestão de Paulo Max, a Globo “entrava com uma grana grossa” para não exibir nem noticiar os resultados do concurso Miss Universo em sua linha de telejornais alegando ser “coisa brega e ultrapassada” na acepção usada por editores como Alberico Souza Cruz e outros. Em 1994, de 27 Estados aptos a concorrer ao título de Miss Brasil válido pelo Miss Universo apenas seis (Piauí, Minas Gerais, São Paulo, Rio Grande do Sul, Paraná e Rio de Janeiro) tinham coordenações locais. O restante das candidatas era indicado pela equipe de Max entre modelos cariocas, paulistas e mineiras, configurando um amplo esquema de fraudes que perduraria até 2011, pelo menos.
Para se ter uma ideia, o nível de organização do Miss Brasil em 1994 lembrava o de nações africanas paupérrimas como Lesoto e Libéria, que ocupavam espaço de países do leste europeu durante a Guerra Fria, de maneira a brecar a entrada de potências comunistas no certame. Naufragava para ter um acordo de televisão como o Costa Concórdia. E, quando conseguiu, já era tarde.
No período da “parceria” ABRACOS-Paulo Max-Globo, o Brasil amargou desclassificações sucessivas no Miss Universo e em outros concursos internacionais de grande porte, como o Miss Mundo e o Miss Beleza Internacional. Obteve títulos de nenhuma repercussão. Naufragou ao dissabor da relutância das agências de publicidade, que preferiram exaltar as marias-chuteiras saídas da geração Dunga-Parreira do que ressucitar um concurso de beleza ainda no coma, beirando a eutanásia.

Acervo Fernando Bandeira/Misses em Manchete

https://tvemanalisecriticas.files.wordpress.com/2012/03/zzzmiss1994.jpg?w=300
Na foto, candidatas a um concurso de Miss Libéria, realizado no Rio de Janeiro e colocado como pauta do Chantástico(*) da Globo para fazer sensacionalismo com sua vencedora

(*)Combinação da chantagem jornalística do padrão global para dar Ibope e vender jornal e revista com a estética ultrapassada e retrógada do Fantástico, capenga na audiência

Sobre João Lima

Crítico de entretenimento desde 2001, João Eduardo Lima escreve no Jornal Meio Norte. Foi repórter de Regional, Polícia e Nacional. Em 2005, entrou no mundo da blogosfera independente com o pioneiro TV em Análise. Suas postagens sobre os bastidores do Miss Brasil-Miss Universo mostraram ao público um lado dos concursos de beleza que os organizadores não querem que você saiba. E, ainda por cima, querem, na base da mordaça, impedir você, leitor, contribuinte e pagador de impostos, de saber o que está por trás do manto vermelho da missologia nacional.
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2 respostas para Dossiê do Críticas: Aliadas, a famíglia Marinho, a ABRACOS e Paulo Max destruiram o sonho das misses brasileiras

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