Rubens Ewald Filho: Considerações sobre as indicações ao Oscar


Para entender

No R7

Divulgação

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Passado o primeiro momento de susto e a corrida para entregar o texto, agora já é possível fazer uma análise mais completa das indicações ao Oscar e tentar entender algumas coisas totalmente ilógicas.
Com a ajuda de um artigo de Mark Harris de quem cito algumas sacadas bem-humoradas. Eles fazem uma comparação com a corrida presidencial americana dos Republicanos, mas para nós infelizmente não faz sentido. Distante demais. Mas vou citar.
Diz que O Artista é como Milt Romney (quer agradar de qualquer jeito, mas não quer dizer nada em especial, não é muito popular, mas na ausência de outros pode até ganhar), Hugo seria Rick Santorum (um pouco lento e saudosista) e Os Descendentes como Newt Gingrich (emocionalmente, instável, contra as esposas, esta indo mais longe do que se podia esperar).

1 – De uns anos para cá temos visto uma tendência da Academia fazer jus a seu nome de Academia de Artes! Isso explica as indicações para Melhor Filme, Diretor e Fotografia para A Árvore da Vida. Além disso, sempre gostaram e apoiaram o diretor Terrence Malick. Eu gosto do filme e acho que estão certos em apoiar um trabalho de vanguarda, não narrativo e de prestígio. Antes pecar por mais do que menos (que seria o caso de terem colocado entre os finalistas de melhor Missão Madrinha de Casamento). Sabem que eu sou a favor de comédia e gosto do filme, mas francamente seria uma vergonha. Ainda que não faça muito sentido ter nove finalistas, por que não dez? Não seria muito mais lógico?!

2 – Ainda assim a comédia não saiu desprestigiada, já que foram relembrados Kristen Wiig como roteirista de Madrinha, Melissa McCarthy, Jonah Hill (alívio cômico de O homem que Mudou o Jogo), uma surpresa de certa maneira com seis indicações. Mas a experiência ensina que número de indicações não significa vitória (Hugo ficou com 11, O Artista com 10, mas nenhum dos dois está indo bem de bilheteria, pela mesma razão, são sofisticados demais para uma plateia grande).

3 – Não há como não ficar satisfeito com a indicação para Gary Oldman, a primeira depois de uma carreira notável de 25 anos, mas não há a menor chance dele ser premiado. A categoria de Melhor Ator resultou num duelo justamente entre os dois amigos Brad Pitt e George Clooney, ambos ajudados por outros trabalhos, Brad por A Árvore da Vida, George por Tudo pelo Poder. Sendo que George já ganhou fazendo supor que teria chegado a hora de Brad levar o prêmio para casa.

4- As duas novatas do ano são Rooney Mara (Millenium) e Jessica Chastain que parece estar em todos os filmes do ano. Essa foi indicada mais por quantidade do que qualidade, já que em nenhum deles esta mal, nem especialmente bem (em Coriolanus, um dos injustiçados do ano, ela é superada por Vanessa Redgrave, excelente, mas vai ver a Academia achou que já tinha feito sua obrigação lhe fazendo homenagem no ano passado na ocasião do Oscar especial para James Earl Jones). Rooney não merece a indicação já se sabe, mas deve ter sido a admiração pela ousadia dela aparecer toda cheia de piercings e mesmo nua no cartaz americano (para eles tudo isso é já o máximo para uma atriz jovem e rica. Daqui em diante vão apostar nela como futura estrela).

5 – Fizeram a pesquisa e viram que a idade média dos indicados a diretores Michel Hazanavicius, Alexander Payne, Woody Allen, Martin Scorsese e Terrence Malick é de 61 anos, um recorde. Não se teve vestígio de mulheres (comprovando que o Oscar para Kathryn Bigelow foi prematuro), mas felizmente também não incluíram o superestimado David Fincher.

6 – Tudo na vida é uma questão de momento, de timing. Se o Oscar tivesse acontecido ha meses atrás com certeza Histórias Cruzadas teria tido mais indicações e seria mais premiado (a não ser apenas pelo elenco).

7 – Fiquei espantado como o decepcionante J. Edgar conseguiu enganar algumas pessoas, mas a Academia demonstrou que estava atenta. Gostam de Eastwood, menos um pouco de Caprio, mas os dois têm direito de errar. Este último filme deles é uma tristeza e não vai dar nenhum publico.

8 – Já falamos das omissões principais, mas tem aparecido muitas piadas pela ausência da revelação do ano que foi Michael Fassbender por Shame. Onde aparece pelado (mas bem menos do que vocês imaginam, duas ou três vezes andando pela casa e pouco mais, nada explícito). Mas dizem que foi um freudiano “penis envy” (inveja) e que os conservadores gostam que mulher se dispa mas não os homens. Repasso como ouvi.

9 – Não cheguei a comentar com vocês sobre Tão Forte e Tão Perto, que confirmou que Stephen Daldry realmente consegue colocar seus filmes dentre os finalistas como sucedeu antes com tudo o que fez. Mesmo quando é um filme menor. É uma historia sobre 11 de setembro e um garoto nova-iorquino (engraçado que ele é obviamente judeu, mas o filme faz tudo para minimizar isso, inclusive na escolha dos pais Hans e Bullock e sem mostrar detalhes da religião). A melhor coisa do filme é sem dúvida Max Von Sydow, ator ilustre e maravilhoso que merece todos os elogios. Sua indicação é mais que merecida. Mas sabem qual o problema do filme: escolheram como protagonista o menino mais chato, mais desagradável, pedante e irritante do cinema moderno. Nem vou citar o nome para não dar azar. Só esse erro básico já devia desclassificar o filme.

10 – A ausência de As Aventuras de Tintim parece demonstrar que a Academia não considera o capture performance como animação, o que me parece errado e reacionário (essa categoria e esse branch/ramo da Academia é considerado dos mais conservadores e chatos). Se foi por isso melhor mudarem logo de ideia. Eu na verdade fui ver o filme de novo agora em 3D e continuei admirando o prazer que Spielberg tem em fazer movimentos de câmeras, tomadas e cortes que o filme convencional com atores e sets não lhe permitem. O filme é uma delicia visual, também bastante fiel ao quadrinhos e mesmo sua tradução aqui (o Snowy virou novamente Milu, O Unicornio retornou como La Licorne). Mas a verdade é que falta ao filme uma proposta, não é bem para criança, inclusive por que ressuscita um personagem muito discutível e politicamente incorreto, faz piada o tempo todo com um bêbado inveterado (e que pretende ser engraçado), chegando ao mau exemplo de beber álcool! (Um perigo!). Também não é bem para adulto, ficando restrito ao cult e o nostálgico. A verdade é que faltam mais gags, por exemplo a dupla de detetives deveria ser mais engraçada, nada com eles funciona. O batedor de carteiras também não tem graça nenhuma. Mesmo o Milu que começa bem vai perdendo fôlego, enquanto o filme se fixa em aventuras e correrias (que não impressionam em terceira dimensão), mas que fazem pensar em Indiana Jones. O que explicaria porque Spielberg quis fazer o filme sabendo que seria rejeitado pelos americanos (no cinema, alguém gritou ao final, “É muito maluco”! Isso quer dizer que o favorito voltou a ser Rango, o que só comprova que foi um ano fraco para a animação). E que o Oscar vai ajudar dois estrangeiros, A Cat in Paris e o hispano-cubano Chico e Rita que é melhor como trilha que filme.

Alguns recordes e curiosidades

Meryl Streep teve sua 17ª indicação, expandindo o recorde para atores, que já era dela. Mas John Williams foi mais longe conseguindo mais duas indicações (ainda que discutíveis, com As Aventuras de Tintim – que podia ser ainda mais alegre e empolgante – e Cavalo de Guerra, que é exagerada e retumbante). Ou seja, para ele os números 46 e 47 como o mais indicado em todos os tempos!
Outro que se saiu bem foi George Clooney, que depois de ser indicado como ator (Os Descendentes) e roteirista (Tudo pelo Poder) foi indicado para 7 Oscars em 7 anos. Outro favorito foi Woody Allen que teve suas 22ª e 23ª indicações (Direção e Filme, a primeira por Melhor Filme em 25 anos!). Assim ele supera Billy Wilder com quem estava empatado. Notem também que outros tiveram duas indicações, Michel Hazanavicius, Roteiro e Direção, Scorsese por dirigir e produzir e Brad Pitt, como Ator e Produtor. Alexander Payne teve três: Roteiro, Direção e Produção. Kenneth Branagh chegou a sua quinta indicação em cinco diferentes categorias! Kristen Wiig e Annie Mumulo são as primeiras mulheres autoras de Roteiro Original desde Nora Ephron e Alice Arlen, por Silkwood há 28 anos atrás. E pela primeira vez temos três atores que não falam indicados os dois de O Artista e também Von Sydow.
Falta ainda a reclamação maior contra o chamado Music´s Branch que escolheu apenas duas canções ainda que uma de dois brasileiros (bom, se não ganharmos agora é perseguição mesmo, já que a dos Muppets é muito fraquinha! Mas eles tem um super lobby da Disney que ainda tenta salvar o fracasso. Se bem que ontem já foi anunciado que teremos o Rio II e que vai se passar na época da Copa do Mundo!).
A questão é que não é possível que de uma lista de 39 finalistas não tivesse algo para escolher. Como vimos no Globo de Ouro, a música da Madonna era legal, a da Glenn Close uma gracinha, outras de Lady Gaga, Mary J. Blige e assim por diante. E já tivemos anos bem piores e nunca um número tão pequeno de indicados, o que chega a ser constrangedor! O Branch é formado por 236 músicos que vêem os clipes e depois votam de 6 a 10. Para ser classificada é preciso ter uma média de 8.25 ou mais! Se ninguém chegar lá não temos indicados. Se apenas uma consegue a média, a imediatamente anterior também ascende (em 2008 tivemos 3). Ainda acho que é outro sintoma de como a Academia anda perdida e desmiolada.

Sobre João Lima

Crítico de entretenimento desde 2001, João Eduardo Lima escreve no Jornal Meio Norte. Foi repórter de Regional, Polícia e Nacional. Em 2005, entrou no mundo da blogosfera independente com o pioneiro TV em Análise. Suas postagens sobre os bastidores do Miss Brasil-Miss Universo mostraram ao público um lado dos concursos de beleza que os organizadores não querem que você saiba. E, ainda por cima, querem, na base da mordaça, impedir você, leitor, contribuinte e pagador de impostos, de saber o que está por trás do manto vermelho da missologia nacional.
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