Em 1982, a Globo já abusava do jabá e dos intervalos comerciais e puxava o saco de seus artistas


Num intervalo da reprise diurna da novela Marron Glacê e no interlúdio para um filme da Sessão da Tarde na matriz carioca da rede

Da redação TV em Análise

Em 10 de maio de 1982, na TV Globo do Rio, intervalo curtíssimo para o fechamento da reprise do capítulo de Marron Glace, no Vale a Pena Ver de Novo. Minuto 0:46: promo de Elas por Elas de 40 segundos. Minuto 1:22: mamadeira Curity. Minuto 1:52: Zico anunciando o Calcigenol (“sou Calcigenol desde crancinha”). Minuto 2:21 comercial da calça Lee. Todos comerciais de 30 segundos. Tempo total de intervalo: 2 minutos e 10 segundos.
Nas demnais afiliadas, nunca se sabe. O sinal da Globo do Rio não era o mesmo jogado para as demais praças. Na Clube de Teresina, por exemplo, não havia a encheção de linguiça entre o fim da novela e a vinheta da rede.
Minuto 2:52: Fechamento do capítulo da novela. Após o lanchinho da Madame Clô (Yara Cortes) com Dona Angelina (Dire Migliaccio) e um cabeludo que mais parecia o Bola do Pânico, versos melosos de Peaches & Herb em Reunited, próprios para uma novela das sete:

I was a fool to ever leave your side
Remind us you were such a lonely ride
That breakup we had has made me lonesome and sad

Corta para Armando Bógus, Denise Dumont, João Carlos Barroso e Lima Duarte (AKA Ariclenes Venâncio Martins ou voz do Manda-Chuva da animação da Hanna-Barbera) nas respectivas tomadas, dentro da música, dentro do soneto. Minuto 3:33: sobem os créditos de encerramento. Minuto 3:41: off anunciando “TV Globo – Rio de Janeiro. 14 horas, 49 minutos”, estreia da minissérie Avenida Paulista para às 22h15, Sessão da Tarde com filme do Sidney Poitier (Ao Mestre Com Carinho) e Sítio do Picapau Amarelo, com Ali-Babá, Emília e os 40 Ladrões. Poderia ser o Congresso Nacional (dos 300 picaretas) ou a Assembleia Legislativa paulista (que engaveta 69 pedidos de CPI sobre o governo do PSDB).
No minuto 4:08, a confissão de um crime: a Globo anunciava “de terça a domingo no Teatro Tereza Rachel, o Ballet do Terceiro Mundo em Aquarela do Brasil“. Que Brasil? O Brasil do Collor de Mello (do qual Tereza Rachel foi uma das principais Cheerios na eleição presidencial de 1989)? O Brasil da ditabranda (encoberta pela Globo e apoiada logisticamente pelo Grupo Folha)? Ballet do Terceiro Mundo? Nos dias atuais, corresponderia aos colonistas(*) da Globonews, da própria Globo, da Band e do SBT e aos “missólogos” e aos ruralistas da Band que atacam governos trabalhistas legitimamente eleitos pelo povo (Lula, em 2002 e 2006, e Dilma Rousseff, em 2010).
Minuto 4:31: comercial da Delfin, corretora que seria liquidada pelo Banco Central em 1983, durante o governo militar de João Figueiredo (outra cria da Globo). Mais 30 segundos. Minuto 5:01. Mais 30 segundos para os Gigantões da fábrica de brinquedos Estrela. Minuto 5:30: comercial da Insetisan de 15″. Minuto 5:46. 30 segundos do Guaraná Taí. Minuto 6:15. Anúncio de 12 segundos da próxima atração feito pela tecelagem Enéas Franco. Total do intervalo local entre a novela e a vinheta dos tobogãs: 1 minuto e 57 segundos. Tempo esse inadimissível nos dias atuais. Nem em Teresina, nem em lugar nenhum.
Nessa época, a Globo escondia dos telespectadores o prefixo de suas emissoras próprias nos créditos finais de seus programas (no Rio, ZYB 511), chutando-o para os créditos do famigerado certificado de liberação da Censura Federal (essa prática acabaria em 1983, quando o documento passou a ter apenas o preâmbulo “no ar, mais um campeão de audiência”).
Vídeo abaixo para comprovar o que escrevemos:

(*)Convém lembrar que colona não tem nada a ver com cólon da Gyselle Soares. Tratam-se de colonistas que, na visão de Paulo Henrique Amorim, “…tratam o Brasil da perspectiva do que imaginam que a Metrópole imaginaria o Brasil. No caso específico de Gaspari, ele trata o Brasil da perspectiva do que imagina que os professores de Harvard pensariam do Brasil e dele…”. Para o Críticas, tratam-se de colonistas sociais que tratam o Brasil como um combinado de Venezuela em termos missológicos com um Sudão em termos econômicos, sociais, de infra-estrutura (vide a campanha que a Globo e a Band fazem contra a Copa de 2014 e as Olimpíadas de Verão de 2016 por causa dos aeroportos) e de educação. Mais: tratam-se de colonistas sociais, calunistas de sites de celebridades, de jornais facistóides e de revistas de entretenimento que jamais reconhecerão Haley Reinhart, James Durbin, Scotty McCreery e Lauren Alaina, finalistas do American Idol em 2011, como promessas da indústria fonográfica. Preferem a Paula Fernandes, o Neymar, o Elano, o Luan Santana, a Nayla Micherif, a Mariana Rios, namorada do Di do NXZero e a Giovanna Lancelotti, namorada do Pê Lanza do Restart, ambas empregadas da Rede Globo, à Pia Toscano, ao Paul MacDonald, ao Ruben Studdard, à Lindsey Vonn, ao Johnny Weir, ao Clay Aiken, ao Francis Lopes, ao saudoso Raimundo Soldado, ao Israel Lucero, ao LeeDewyze, ao Goffredo da Silva Telles Jr., autor da Carta aos Brasileiros de 1977, à Sarah Michelle Gellar….

Sobre João Lima

Crítico de entretenimento desde 2001, João Eduardo Lima escreve no Jornal Meio Norte. Foi repórter de Regional, Polícia e Nacional. Em 2005, entrou no mundo da blogosfera independente com o pioneiro TV em Análise. Suas postagens sobre os bastidores do Miss Brasil-Miss Universo mostraram ao público um lado dos concursos de beleza que os organizadores não querem que você saiba. E, ainda por cima, querem, na base da mordaça, impedir você, leitor, contribuinte e pagador de impostos, de saber o que está por trás do manto vermelho da missologia nacional.
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