Dossiê do Críticas: os 20 anos da negociata fracassada entre Marlene Brito, a Miss Universe Inc. e a Rede Globo – ato 2


Na reportagem de hoje, veja como o SBT operou na surdina para tentar “salvar” os concursos de misses no começo de 1991, mesmo sabendo da violência dos cortes causados pelo Plano Collor I, que ceifou o emprego de sua ex-produtora, Marlene Brito, e de mais 323 funcionários. E mais: como Marlene conseguiu arrumar testas-de-ferro na Rede Globo para esconder o concurso Miss Brasil(*) 1991 da grande mídia

João Eduardo Lima
Editor e criador dos blogs TV em Análise

Reprodução/O Baú do Sílvio

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Santa Veloso, em 1991: a porta do inferno das misses

Em 15 de janeiro de 1991, uma reunião na sede do SBT, então na Vila Guilherme (zona norte de São Paulo) selou o destino dos concursos de Miss Brasil e Miss Universo na emissora. Na sala, uma Marlene Brito afônica, inundando a sala de lágrimas tanto quanto a chuva sazonal que ensopava a emissora, cabisbaixa, assistia a seus ex-patrões Sílvio Santos e Luciano Callegari sentenciarem a morte dos certames para o planejamento da grade de 1991, que estava sendo formatada naquele momento. Naquele mesmo dia negro para a missologia nacional, era lançado o Plano Collor II, mais violento e mais cortante, que arruinou as finanças do SBT, que, além de cancelar os concursos de beleza (tidos por pessoas do departamento de jornalismo e da área comercial como “coisa brega e ultrapassada”), suspendeu a produção de novas novelas nacionais pelos próximos três anos em favor da importação de tramas mexicanas (Carrossel, Rosa Selvagem, et caterva). Segundo relatos obtidos pelo Críticas com exclusividade, Marlene Brito armava um modo de se vingar da demissão que sofrera devido ao Plano Collor I, apoiado e orquestrado pela Rede Globo e pelo Fundo Monetário Internacional (FMI). Tinha na manga uma carta dos diretores da Miss Universe Inc. e da rede americana CBS que iria por o mundo de Sílvio e de seus asseclas abaixo.
Autorizada pelo substituto de Harold Glasser na direção da Miss Universe Inc., Marlene Brito foi à forra contra o SBT. Abriu a boca em jornais do interior para denunciar que tinha sido “vítima de uma trama orquestrada para desestabilizar os concursos de misses no Brasil”. Foi ignorada pelos grandes jornalões da época (O Globo, Jornal do Brasil, Folha(*) de S. Paulo e O Estado de S. Paulo, bem como suas empresas-satélites de rádio e de TV). Acusou Sílvio de fazer parte de um “complô” organizado pela Rede Globo para acabar com o Miss Brasil(*), em associação com a Rede Bandeirantes (com quem, ironicamente, assinaria seu único acordo televisivo – para o Miss Mundo Brasil 1991, um concurso menor e mais irrelevante). No fundo, Marlene acusava o SBT de cortar economias para parar de organizar um de seus eventos mais tradicionais de grade que, com o passar dos anos de 1981 a 1989, foi sendo destruído por um cartório de incompetência e irresponsabilidade, instalado na rua Dona Santa Veloso, 575, no galpão antes ocupado pela antiga TV Excelsior para a gravação de suas novelas.
Em outra frente, diretores da área de afiliadas do SBT conversavam com representantes das emissaoras nos Estados sobre a possibilidade de realização do concurso Miss Brasil 1991. Estavam tão confiantes que pessoas de confiança da alta direção da emissora viajaram a Los Angeles (sede da Miss Universe Inc. à época) em vão para tentar convencer a nova direção do Miss Universo (àquela altura já desligado da Paramount) de tentarem assegurar o concurso na grade do SBT para 1991. Foram barrados por Sílvio, Callegari e o diretor de rede Guilherme Stoliar, sobrinho de Sílvio, que sentenciou: “Esse negócio de concurso de Miss Universo é um lixo. Não vamos gastar dinheiro nessa droga com uma economia tão arrebentada quanto a nossa. Devemos oceanos de dinheiro ao FMI e vamos ganhar o quê mantendo esse elefante branco?”.
Os ataques de Stoliar ao Miss Universo soaram mal à alta direção do SBT no dia 30 de janeiro, quando boa parte dos artistas sob contrato começava a retomar sua rotina de gravações para a temporada 1991. Segundo fontes independentes disseram ao Críticas, Stoliar “traiu a biografia do SBT em concursos de beleza, apesar da mediocridade em que este show se converteu de 1981 para aquela época [1991]”. Stoliar estava certo: em 1989, o SBT perdera US$ 50 milhões com a produção do concurso de Miss Brasil e devia quantia semelhante à Miss Universe Inc., com a não inscrição de candidatas, a não transmissão de eventos (o Miss Universo 1989) e o não honramento de compromissos (o cancelamento do Miss Brasil 1990), que levaram a emissora paulista a ser descredenciada do concurso internacional no dia 7 de março. Àquela altura, a representação do Miss Universo no Brasil já estava 100% nas mãos de Marlene Brito.

As tetas globais

Segundo o Críticas apurou, Marlene Brito assumiu a representação do Miss Universo no Brasil a pedido de Roberto Irineu Marinho, um dos três vices-presidentes das Organizações Globo à época, atualmente casado com a ex-miss São Paulo Karen Villen Baum. Em uma carta timbrada com o logotipo da Rede Globo, datada de 10 de março de 1991, Roberto Irineu pedira a ex-produtora do Miss Brasil no SBT “tratamento privilegiado, discreto, sigiloso e absolutamente exclusivo sobre todos os assuntos relacionados ao Miss Brasil e ao Miss Universo nos produtos jornalísticos das Organizações Globo (telejornais comunitários, telejornais de rede e programas jornalísticos da Rede Globo, notícias e notas de colunas do jornal O Globo, noticiário da Agência Globo e radiojornais do Sistema Globo de Rádio)”. Ou seja: na prática, a Globo, amparada por um amplo esquema de mídia, amamentado por jornais filiados à Agência Globo, colunistas sociais simpáticos às ideias retrógradas de seu chefe (Roberto Marinho) e jornalistas leais aos “princípios éticos e editoriais” capazes de abater até mesmo a garotinha com síndrome de Down do American Horror Story e ministro do Trabalho de governo trabalhista (o pedetista Carlos Lupi, para citar caso recente) e satanizar governos trabalhistas eleitos pelo povo, operava para esconder da opinião pública dois dos eventos mais tradicionais de beleza do país (o Miss Brasil) e do mundo (o Miss Universo e o Miss Mundo).

Fotos Divulgação/ABC e Divulgação/Gaeta

https://i1.wp.com/www.daemonstv.com/wp-content/uploads/2011/09/revenge-abc-poster.jpeghttps://i0.wp.com/imagem.band.com.br/f_53784.jpg
Nas fotos, Emily Thorne (Marlene Brito) esmagando a Miss Brasil(*) 1991, Patrícia Godói

De acordo com a apuração feita pelo Críticas, a Most of The Brazilian Beauty assinou contrato sigiloso com a Globo no dia 13 de abril de 1991, dificultando assim qualquer negociação do SBT com a Miss Universe Inc.. Na prática, a Globo assumia na surdina a propriedade dos concursos de Miss Brasil e Miss Universo, não para transmití-los em TV aberta. Mas para cercear a sua divulgação pela mídia. Quem ousasse, em qualquer redação de jornal, rádio ou TV, falar em concurso de Miss Brasil ou Miss Universo naquele começo de década de 1990 era expulso, demitido ou tinha o salário cortado pela metade. Foi o caso de duas jornalistas do SBT em Foz do Iguaçu (PR), demitidas em outubro de 1992 por noticiarem em programa de rádio a eleição da namíbia Michelle McLean. Ao saberem da notícia, representantes da RPC-TV ligaram extremamente furiosos de Curitiba para pedirem suas cabeças. “Essa gente ligou foi para me matar”, disse, aos prantos, uma das profissionais, que terão suas identidades preservadas.
Tal como na série norte-americana Revenge, exibida pelo canal pago Sony, Marlene usou o Miss Brasil e o Miss Universo para praticar vinganças contra seus inimigos. O SBT. O PDT do Brizola. O LL Cool J. A Paula Abdul. O Lula. O PCdoB do João Amazonas (a quem chamava de “Satanás” e de “Satãgoss do Jaspion” em conversas reservadas com Sílvio Santos, quando produzia o Miss Brasil para o SBT). O samba de partido-alto. O Elson do Forrogode. O Lennie Briscoe. O legado musical da Clara Nunes. Os defensores do “Petróleo é Nosso”. Os simpatizantes dos CIEP’s (Brizolões). Os telespectadores das parabólicas que viam o Peter Jennings apresentar o World News da ABC. O povo indígena. A Faith Hill. A discografia de Geraldo Filme. A filmografia de Glauber Rocha. Os consumidores de Danoninho e de BioActivia. O Washington Olivetto. O Jorge BenJor. O D, o P e o Z da DPZ. Os opositores do “Little Bad Tony” (a.k.a. Toninho Malvadeza ou Antônio Carlos Magalhães). O Tom Zé. O Ice-T. A Mariska Hargitay. O Chris Meloni. O Datena. A Julianna Margulies. O Alceu Valença. O Gilberto Freyre. O Lee DeWyze. O Dee Snider do Twisted Sister. O Bret Michaels. O Luís Nassif. O Plínio Marcos. O Simon Cowell. A Kelly Clarkson. A Melanie Amaro. O Stereo Hogzz. O Astro do The X-Factor USA. A Madonna. A Lady GaGa. A Música Popular Brasileira. O cheiro da vitória-régia. A lenda do boto do Pará. O Paulinho da Viola e o Paulinho da Força. As porralouquices do Charlie Sheen. O flash-mob. A Petrobrás. A Hemobrás. A TV Brasil. O Kevin Bacon. O açougueiro da esquina. A Kyra Segdwick. O Chico Picadinho (não o criminoso e sim o churrasqueiro). O dono da cjhurrascaria instalada na BR-116 (rodovia Rio-Bahia), km 424, perto de Jeremoabo, que assiste ao American Idol em lugar da novela das nove. O pipoqueiro que prefere ver a NFL ao horror jornalístico do Chantástico(**), que assaca ódio a nordestinos, especificamente piauienses. Os comediantes do Chelsea Lately. A Sarah Clarke e a Emily Thorne. O Adoniran Barbosa. A Emily VanCamp.
Na Globo, Marlene Brito arrumou quatro testas-de-ferro para barrar os concursos de misses da pauta. Dois deles, o empresário Olacyr de Moraes e o banqueiro Daniel Dantas não tinham qualquer ligação com a Globo. A única figura global que Marlene conseguiu arrebanhar para seu esquema foi o então diretor nacional de jornalismo, Alberico Souza Cruz, amicíssimo do então presidente Fernando Collor, a quem dedicou um terço do globo repórter reapresentado num sábado de abril de 1987 para antecipar o programa do Chacrinha. Luís Erlanger, atual diretor da Central Globo de Comunicação chegou a ser sondado por Marlene Brito para servir de elo de imprensa entre a Most of the Brazilian Beauty e as Organizações Globo, mas seus superiores imediatos no jornal O Globo, onde Erlanger trabalhava à época, proibiram. Com a baixa de Erlanger, a relação da Most of the Brazilian Beauty com a Globo começou a se deteriorar e não duraria muito tempo: após a assinatura do contrato para a exibição do Miss Mundo Brasil 1991 pela Rede Bandeirantes, o acordo foi rompido em 3 de setembro de 1991, sem que Marlene soubesse. Com isso, os concursos de beleza ficariam pelos próximos 10 anos sem espaço na chamada “grande mídia”, graças a artimanhas montadas pela Globo, como o famigerado “escândalo da parabólica”, estrelado pelo então ministro da Fazenda Rubens Ricúpero às vésperas da eleição presidencial de 1994. Veja:


“O que é bom (novela das 21h com atriz mostrando seios, pêlos pubianos, bunda e vagina em cena de banho, derramamento se sangue, ódio a nordestinos, destruição de legado musical da MPB e assassinato de reputação e reporcagem globelezada contra o PT, o Ryan Seacrest, o Hugo Chávez, o Ahmadinejad, o Clay Aiken, o Kris Humphries, a Kim Kardashian e a Petrobrás) a gente fatura, o que é ruim (American Idol, The X-Factor, concursos de Miss Brasil e de Miss Universo[*]) a gente esconde”

Foi dessa forma que Marlene Brito e Ricúpero, através da Globo, elegeriam Fernando Henrique Cardoso (PSDB) três anos mais tarde como presidente da República.

Amanhã, na última reportagem da série: Os detalhes sórdidos do acordo entre a Globo e uma associação de colunistas sociais para “abafar” o concurso Miss Brasil(*) 1994 numa pauta do Chantástico(**). E as conexões entre a família de Paulo Max e os neoliberais do PSDB que continuaram a esconder os concursos de misses da grande mídia (exceto em capas de revistas masculinas do Grupo Abril)

(*)Na teoria, a Band é dona dos direitos de transmissão do concurso Miss Brasil e de seus concursos estaduais quando, na prática, estes pertencem à Globo (que desde 1990 paga para não transmití-lo). É a mesma coisa que a emissora da famíglia Marinho fez (e ainda faz) com as séries da FOX, como Glee, Bones, Burn Notice e outras (fora as animações)
(**)Combinação da chantagem jornalística do padrão global para dar Ibope e vender jornal e revista com a estética ultrapassada e retrógada do Fantástico, capenga na audiência

Sobre João Lima

Crítico de entretenimento desde 2001, João Eduardo Lima escreve no Jornal Meio Norte. Foi repórter de Regional, Polícia e Nacional. Em 2005, entrou no mundo da blogosfera independente com o pioneiro TV em Análise. Suas postagens sobre os bastidores do Miss Brasil-Miss Universo mostraram ao público um lado dos concursos de beleza que os organizadores não querem que você saiba. E, ainda por cima, querem, na base da mordaça, impedir você, leitor, contribuinte e pagador de impostos, de saber o que está por trás do manto vermelho da missologia nacional.
Esse post foi publicado em American Idol da incompetência missológica brasileira, Globelezação, Nossas Venezuelas, Poderes ocultos, Podres poderes, Projetos especiais, Todas as Venezuelas do mundo e marcado , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , . Guardar link permanente.

2 respostas para Dossiê do Críticas: os 20 anos da negociata fracassada entre Marlene Brito, a Miss Universe Inc. e a Rede Globo – ato 2

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