A grande encrenca por trás de The Playboy Club


Moralistas cristãos, hipócritas, oportunistas, aproveitadores e imbecis

João Eduardo Lima
Editor e criador dos blogs TV em Análise

Fotos Divulgação/NBC, AE, Coord. Curso História/UPF e Reprodução/PNAP

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Em diferentes versões, as colelhinhas da NBC e seus perseguidores pátrios: fantasmas de 1964

É mesmo preocupante a situação da série de época The Playboy Club, aposta altamente arriscada da rede americana NBC para tratar de um tabu na TV aberta do país: um ambiente de sexo e gartotas, mal visto para os padrões conservadores de entidades como oportunistas mórmons e o temidíssimo Parents Television Council (PTC), notório inimigo de programas que, a seu ver, “estimulam e divulgam a pornografia na ficção”. Esse entrave (talvez agravado pelo boicote da afiliada de Salt Lake City, pertencente à Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias) tem sido a grande trava na língua para a emissora não ter anunciado ainda as datas de estreia da fall-season 2011. O resto da concorrência (ABC, CBS, The CW e FOX) já fez o serviço. E a lição de casa.
Acho até válida a intenção dos produtores da trama de imprimir um ar de Don Draper (publicitário mulherengo vivido por Jon Hamm em Mad Men) ao quilate de Nick Dalton, advogado da mais alta cepa de Chicago (sede mundial da Playboy Enterprises) vivido por Eddie Cibrian (ex-CSI: Miami). Me pergunto: para que essa gritaria toda de moralistas de porta de igreja por conta de uma série que sequer teve seu piloto exibido? O que essa gente efetivamente quer? A reprise das pressões da Taco Bell, General Motors, Subway e outros anunciantes de peso que forçou a MTV a cancelar a adaptação americana de Skins? A reprise das pressões do Silas Malafaia e do missionário R.R. Soares (dono da operadora de TV paga Nossa TV) que forçaram a Band a acabar com o Cine Privê depois de 17 anos? Onde está o semancol dessa gente? No topete da Snooki do Jersey Shore? Em uma cena de aberração do Insensato Coração da TV Globo? Convém lembrar que a rede da famíglia Marinho exporta esse e outros lixos (Xuxas, Faustões, Fiuks, Hucks e outras cobaias monopolistas midiáticas brasileiras) até mesmo para países de democracia fechada e mercado aberto, como China e Vietnã.
Em tempos de defesa da liberdade de expressão e da democratização da informação (que, preferencialmente, não seja a dos donos dos órgãos de imprensa), preocupa tamanha grita hipócrita contra programa ainda não exibido. Cá entre nós, teve alguma grita quando entrou no ar a primeira Casa dos Artistas do SBT? Teve sim, e foi da Globo associada ao Corinthians então do Marcelinho Carioca, contratado depois pela Band para ser jurado de concurso de miss e comentarista de soccer (como os americanos chamam o futebol praticado neste país). Aos fatos:

-Em 13 de junho, a KSL-TV de Salt Lake City disse não à exibição de Playboy Club na condição de afiliada da NBC na cidade;
-Quinze dias depois, a KMYU, afiliada local da MyNetworkTV (na verdade, um sub-canal digital da afiliada local da CBS, a KUTV), passou a faca em Law & Order: Criminal Intent para deixar The Playboy Club passar (se é que isso vá acontecer);
-No dia 30, o grupo Morality in Media começou a onda de petições para a NBC não levar ao ar a série ou, ao menos, forçar um boicote de telespectadores e anunciantes (tal qual Skins);
-Hoje, a Morality in Media (grupo para-religioso por trás do terrorismo contra a trama criada por Chad Hodge e produzida por Brian Grazer, de Parenthood) lançou o que chama de “segunda fase do esforço nacional” para acabar com Playboy Club e infernizar a já tumultuada vida dos executivos da NBC, especialmente de suas divisões comercial e de afiliadas. Chegaram à pachorra de lançar um site para chantagear até mesmo o mais alto executivo da Comcast-NBCUniversal, empenhada ao máximo em promover a série. Caso Playboy Club nem chegue a ir ao ar, será um buraco enorme nas finaças pessoais de Cibrian e dos produtores.

Ou seja, os terroristas americanos da fé usam de uma obra de ficção para promoverem uma tsunami desnecessária em copo de guaraná Kero ou de cajuína (conforme seja o caso). Nem Jimmy Swagart (que ocupou durante anos o começo da grade matinal da Band) chegaria a tamanha cachorrada, vista no Brasil apenas em duas ocasiões: na famigerada Marcha com Deus e pela Família, em 1964, e na Marcha para Jesus, onde rebanhos apoiados pela TV Globo entoaram canções de protesto contra a liberação do casamento gay pelos bravos juízes do STF.
Isso sim é que se deve chamar de um pequeno passo (para trás) para o homem, mas um grande retrocesso para a humanidade (ao contrário do ditame original de Neil Armstrong ao pisar na Lua há quase 42 anos).
Para uma melhor compreensão, eis os nomes dos alvos da ira moralista contra Playboy Club:

-Stephen Burke (CEO da NBC);
-Kathy Kelly-Brown (Vice-presidenta senior da NBCUniversal);
-Rebecca Marks (Vice-presidenta executiva da NBC);
-Curt King (Vice-preseidente senior da Universal Media Studios);
-Arthur R. Block (Secretário da Comcast);
-Afiliadas locais da NBC (inclusive em Guam, Porto Rico, Marianas do Norte e Samoa Americana);
-O feedback da NBCUNiversal;
-Matt Bond (vice-presidente executivo da NBC).

Mas, por outro lado, artigo do professor Luiz Gonzaga Motta, da Universidade de Brasília (UnB), talvez explique melhor o silêncio do Grupo Abril (que edita a versão brasileira da revista Playboy) ante as manifestações anti-série de TV relacionada aos clubes fundados por Hugh Hefner na década de 1960. Não tem nada a ver, mas faz algum sentido com a prática jornalística adotada pela Playboy Brasil (amaciar líderes da direita – Jair Bolsonaro, ACM Neto – e gângsteres do desporto – Patrícia Amorim, Andrés Sanchez – e espancar representantes da esquerda – Lula e Dilma Rousseff – em matérias de cunho jornalístico). Reparem:

A revista Veja e o mau jornalismo: agendar uma pauta e correr para confirmar

Por Luiz Gonzaga Motta(*)

Matéria publicada nas paginas 113 a 116 da edição desta semana da revista Veja (6 de julho de 2011) sobre a atual gestão da Universidade de Brasília (UnB) é um atestado de mau jornalismo.Tipicamente, o ângulo da reportagem já havia sido determinado antes. O repórter só foi ao campus para confirmar aquilo que a direção editorial da revista já tinha decidido noticiar, independente de as afirmações corresponderem ou não ao que acontece na realidade. Mais uma vez, infelizmente, a revista utiliza o seu poder editorial para adotar na reportagem uma posição política contra aqueles que não se coadunam com o seu pensamento ideológico. É lamentável impregnar falsamente a reportagem com opinião individual da direção da revista, fingindo fazer jornalismo.
A matéria assume uma posição político-editorial logo na abertura. Já começa acusando a atual administração da UnB de cercear a opinião, tolher a liberdade de pensamento, perseguir pessoas antes de qualquer outra informação. O título, ruim, reforça o caráter opinativo. Quer ligar a universidade ao treinamento fundamentalista. Se há algo que excede hoje na Universidade de Brasília é liberdade. O atual reitor, Prof. José Geraldo de Sousa Jr. pode até ter alguns defeitos. Mas, se há algo que ele não pode ser acusado, é de intolerância política. A diretoria do sindicato dos docentes faz uma aberta oposição política ao reitor, os estudantes se manifestam como e onde querem, recursos são distribuídos através de editais que proporcionam direitos iguais para todos (uma novidade desta gestão), os professores têm absoluta independência para lecionar os conteúdos que escolhem, os debates nunca foram tão livres e espontâneos. Fala-se de tudo: liberação da maconha, eleições, partidos políticos, sexo, cotas, direitos de gêneros e tantos outros temas da agenda pública. Quem duvidar, compareça hoje ao campus da UnB.
O jovem repórter Gustavo Ribeiro não aprendeu as boas lições do jornalismo: ouvir os dois lados e apurar com competência profissional. Ou prestou-se a ser apenas menino de recados da direção editorial da revista, o que é pior. Se uma procuradora foi alvo de manifestações num debate por atacar a política de cotas para negro, foi uma reação das pessoas presentes, nada tem a ver com a atual gestão. Aliás, contradiz a reportagem, atesta a liberdade. Quem amplia ou diminui a carga horária de um professor – outra das acusações da matéria – não é o reitor, é o colegiado do departamento ao qual o docente pertence. Isso não pode ser imputado à reitoria. Pior ainda, a declaração não está “na boca” da professora que teria reclamado, mas de um docente que teria ouvido a afirmação dela. Mas, por incrível que pareça, ele não é identificado na reportagem. Citação terceirizada, afirmações no condicional, mau jornalismo.
A matéria demonstra que o repórter foi atrás apenas de quem confirmava a pauta pré-definida. Um ex-professor voluntário não é a melhor fonte para falar sobre questão tão sensível como perseguição política em uma universidade. Primeiro, ele é ex; segundo, é professor voluntário. Se ele é um dos “maiores especialistas do direito brasileiro”, por que é professor voluntário? Por que não prestou concurso? A UnB tem hoje quase três mil professores do quadro que poderiam avaliar melhor que os voluntários se há liberdade de cátedra e debates no campus. Um dos ouvidos é um folclórico professor que, num blog pessoal, se auto-intitula porta-voz da extrema direita. Infelizmente, há pessoas que ainda hoje dividem o mundo entre esquerda e direita, como faz a própria reportagem. Outro docente citado tem vários processos no Conselho de Ética movidos pelos seus próprios colegas. Nada a ver com a administração central. Por que a matéria só ouviu docentes que, por razões pessoais, se dispõem a reclamar?
Os fluxos administrativos nunca foram tão democráticos na UnB quanto são hoje: seguem obrigatoriamente o caminho dos órgãos colegiados. Nada mais democrático. Depois da crise de 2008, o Conselho de Ética foi restaurado, a ouvidoria implantada, os colegiados fortalecidos. Uma professora ouvida na matéria reclama por ter perdido a ‘chefia’ de um curso, problema localizado no seu departamento, nada tem a ver com a administração central. A respeito dessa mesma acusação, mais uma vez, a reportagem segue pelo caminho do mau jornalismo. Traz uma declaração entre aspas de um professor que “não quer se identificar por temer represálias”, recurso hoje utilizado por certo jornalismo panfletário que camufla declarações do próprio veículo fingindo tratar-se de alguma fonte credenciada. Encontrar alguém descontente por razões pessoais com o objetivo de comprovar uma pauta jornalística pré-agendada é fácil. Mas é sintoma de péssimo jornalismo. Infelizmente, há tempos, a revista Veja optou por este caminho: escolhe seus desafetos e utiliza o jornalismo contra eles”.

(*)Professor de jornalismo da Universidade de Brasília

Conclusão: a Veja que atacou a UnB de graça pertence à mesma editora da versão brasileira da Playboy – a Abril, que tem como sócia a sul-africana Naspers, que apoiou o regime de apartheid que manteve Nelson Mandela preso por 27 anos.
Aqui, a imprensa não ataca The Playboy Club (talvez por sua associação com o Grupo Abril e com a revista Veja) tampouco a amacia.
Mas, nos Estados Unidos, a fúria contra Playboy Club tem nome e sobrenome: FOX News, espécie de Globo News local, junto com o Tea Party, o PSDB, o Democratas, o PSD do Kassab, a gaeta(**) promoçõe$ e evento$, a Band, a União Democrática Ruralista, a CNBB, o projeto Criança Esperança, a Confederação Nacional da Agricultura, o movimento Cansei, o Instituto Millenium…

(**)gaeta é o modo como a Gaeta Promoções e Eventos deve ser sempre escrita: em minúsculas, para provar o quanto o Brasil é uma sub-Venezuela, um sub-Porto Rico, uma sub-Colômbia (tipo um Whooper Jr.) ou uma Guatemala tamanho-família (tipo esses sanduíches Whooper do Burger King, Sub do Subway, Big Bob, Big Mac e afins) em termos de concursos de misses

Sobre João Lima

Crítico de entretenimento desde 2001, João Eduardo Lima escreve no Jornal Meio Norte. Foi repórter de Regional, Polícia e Nacional. Em 2005, entrou no mundo da blogosfera independente com o pioneiro TV em Análise. Suas postagens sobre os bastidores do Miss Brasil-Miss Universo mostraram ao público um lado dos concursos de beleza que os organizadores não querem que você saiba. E, ainda por cima, querem, na base da mordaça, impedir você, leitor, contribuinte e pagador de impostos, de saber o que está por trás do manto vermelho da missologia nacional.
Esse post foi publicado em Mondo cane, Séries, Vasto mundo e marcado , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , . Guardar link permanente.

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